Na obra-prima do Padre Alves Vieira, Vieira do Minho – Notícia Histórica e Descritiva (1923-1925), na celebração do 1.º centenário da sua publicação.

Um projeto CAVA, com fotografias atuais de Miguel Proença. Apoios: Instituto Português do Desporto e Juventude, O Jornal de Vieira e Rádio Alto Ave.

Capítulo IX (I Parte) – VIEIRA RELIGIOSO

«Vieira Religioso» é, sem dúvida, uma das faces que não podia deixar de figurar no poliedro da Notícia Histórica e Descritiva de Vieira do Minho, da autoria do seu cronista-mor, o memorável Pe. Alves Vieira (1880-1962).

Tendo sido escrita e publicada, há 100 anos (1923-1925), a perceção e visão do nosso biógrafo sobre a religiosidade do povo vieirense refletem naturalmente o espírito e a letra do tempo em que a obra veio a lume. Recorde-se que o autor morreu no dia 10 de outubro de 1962, na véspera da abertura do grande Concílio Vaticano II (1962-1965), o providencial e maior acontecimento da história da Igreja Contemporânea, que abriu as portas e as janelas a uma nova forma de ser e de agir da Igreja, no Mundo Contemporâneo.

Como “espírito encarnado” que é, o ser humano carece de sinais e ícones simbólicos que o elevem da esfera do sensível à esfera do invisível.

Exaltando a profusão de alminhas, de nichos, de ermidas, de capelas, de igrejas, que observara na “doce Itália do norte”, o Pe. Alves Vieira compara com semelhantes desses pequenos monumentos da religiosidade e piedade populares que é possível observar no seu pátrio Minho, destacando nove no perímetro de Vieira do Minho.

O reconhecimento do valor religioso e do mérito cultural destes monumentos e a mística dos lugares emblemáticos em que foram edificados merecia a implementação e promoção de uma Rota dos Santuários Vieirenses.

Publicam-se deste capítulo os extratos que se seguem:

“Se há verdade certa e infalível neste vale de lágrimas, é que a nossa vida é um misto de alegrias e de mágoas. Por mais que queira, o homem não foge à triste sina do padecer. Temos um bem, gozamo-lo de fugida, depressa nos aborrecemos dele; e logo corremos em cata de outro bem, que se nos afigura mais apreciável; e esse segundo bem desaparece como o primeiro, quando menos o pensamos. […]

Bem razão tinha pois o nosso poeta para exclamar, alarmado com as misérias humanas:

No mar tanta tormenta, e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida!

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade aborrecida! (Lusíadas, Canto I, 106)

[…]

Bem-avisados andaram, pois, os nossos avós erguendo nas cumeadas das serras e no remanso dos vales esses templos deslumbrantes de alvura, aonde a piedade acode hoje numa piedosa romaria, a solicitar favores, a almejar repouso, a exorar clemência.

Todo o Minho é um jardim religioso, onde se alteiam viçosas e fecundas rosas de todos os matizes e de todas os perfumes. Não há freguesia, povoação, lugar, onde a piedade cristã não erguesse um templo, uma ermida, um nicho.

Estudemos de fugida as de mais nomeada no concelho.

S. Bento da Porta Aberta fica dentro de Vieira judicial, se assim nos podemos exprimir. É, pois, em certo modo, nosso, pois à nossa justiça toca resolver os pleitos e a sanção a dar aos crimes que à sombra daquela linda freguesia de Rio Caldo se possam dar.

Nosso ou alheio, que lindo ponto de devoção é aquele Santuário! Acudam a ele de toda a parte; e se ao espiritual querem aliar o material, sigam viagem pela Serra do Carvalho, de onde desfrutam a mais soberba paisagem portuguesa.

Nossa Senhora da Lapa – É capelinha situada na freguesia de Soutelo, em sítio ermo e varejado dos ventos. A romaria costuma ser muito concorrida.

A pequena capela foi aberta debaixo e dentro de penedos, e tudo lá é de pedra, exceção feita do altar e o púlpito.

Nossa Senhora da Fé – Já no Minho Pitoresco, José Augusto Vieira diz ser o santuário mais taumaturgo de todo o Vieira. Queremos crê-lo, fiados mesmo no seu progressivo rendimento. […]

O gracioso templo fica encravado na serra, em sítio em extremo pitoresco e ameno. Bem merece uma visita: que se a jornada for um tanto fatigante, fica-se de sobra compensado com o soberbo espetáculo que do alto da Serra se desfruta.

Nossa senhora da Orada – É outro belo santuário encravado no sopé da serra, na freguesia de Pinheiro. Tem festa e romaria também muito concorrida.

Frescas águas e boas sombras tornam convidativo um passeio até ao local.

A pouco metros do templo, fica a fonte, onde a tradição popular diz que apareceu Nossa Senhora, pedindo para lhe fazer o templo.

S. Frutuoso – É capela, à beira da estrada de Cabeceiras, no lugar de Casares, freguesia de Rossas. A romaria também junta muito povo.

S. Roque – É pequena capela, no picoto de um monte da freguesia do Mosteiro. […] É apreciável o panorama, sobretudo para os lados de Figueiró.

S. Francisco – É popularmente conhecida a igreja pelo designativo de Nossa Senhora dos Remédios, e foi a irmandade do mesmo título que tornou grande e imponente o formoso local; mas, a festa principal dali, e que sempre ali atraiu as multidões, é a de S. Francisco, que de ordinário se celebra em princípios de maio, coincidindo com ela o aparecimento das primeiras cerejas.

É sítio de uma rara beleza e encantamento. A antiguidade da igreja – datada de 1668 – contribui para aumentar o interesse.

S. Silvestre – É capelinha modesta, lá para as bandas de Guilhofrei, e à sombra do Merouço.

Nossa Senhora da Conceição – Fica num alto sobranceiro ao Cávado, e na freguesia de S. João da Cova.

Além destas, há muitas outras capelas e igrejas, assaz concorridas de fiéis. Imagine-se que, só a freguesia de Rossas conta 18 capelas, quase todas públicas. […].

E de algumas se falará em particular, ao fazer na segunda parte, a descrição de todas as freguesias.”

Fotografias: Santuário de Nossa Senhora da Lapa, Soutelo / Procissão de Nossa Senhora da Lapa, Soutelo.