
O momento presente é seguramente o tempo de debater, refletir e fazer escolhas lúcidas sobre o futuro da saúde e dos Serviços de Saúde em Vieira do Minho. Não é certamente o momento da discussão estéril das “capelinhas” e de saber qual o outeiro mais alto e a fachada mais vistosa para edificar a minha “capelinha”. Nem tão pouco é chegado o tempo de exibir os louros e a paternidade de saber quem fez mais pela construção do novo Centro de Saúde. Recusemo-nos terminantemente a entrar na discussão das capelinhas em tempos sombrios de pandemia e incerteza quanto ao futuro. Sempre afirmei que o mais fácil no que respeita à construção do Novo Centro de Saúde era discutir a compra do terreno e o tabu de saber se já havia ou não havia terreno. A razão dessa recusa está no facto de perceber que não se deve discutir a localização de per si, sem correlacionar a opção da localização com outro tipo de fatores que considero determinantes na hora de conceber e defender junto das “entidades competentes” a estrutura física que queremos. E esta deverá ser concebida e projetada em função dos serviços de saúde que ambicionamos ter no futuro.
Então que serviço (s) queremos? A quem e quantos utentes vai servir? E finalmente…Qual a melhor localização? Para responder à primeira questão, a questão central, teremos de perceber qual o nível de diferenciação dos serviços de saúde que queremos. Desejamos ter um Centro de Saúde que inclua uma Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP), mais uma Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) e duas Extensões (Ruivães e Rossas), serviços já existentes? Pretendemos uma Unidade de Saúde Familiar (USF) …? Ou ambicionamos, em alternativa, um Serviço de Urgência Básico (USB) e demais valências e serviços necessários? A primeira opção já nós conhecemos e é a que existe hoje. A segunda escolha é defendida por alguns. Os que acreditam nas virtualidades das USFs. Sei que as USFs foram impulsionadas por Correia de Campos. Uma USF corresponde a uma pequena unidade funcional de um Agrupamento de Centros de Saúde, constituída por uma equipa de médico(a) de família, enfermeiro(a) de família e pessoal administrativo… e tem a missão “quase empresarial” de prestar cuidados de saúde, de acordo com um conjunto de critérios de rentabilidade, à população de determinada área geográfica. Há quem considere esses cuidados personalizados e de qualidade. Há quem considere o serviço uma forma de desresponsabilização do Estado na prestação de cuidados, uma visão pró empresarial com base no suposto incentivo profissional para o agente que presta o cuidado, mas há quem considere uma opção algo impessoal para utentes e pacientes que vêem o tempo de consulta/atendimento esfumar-se e reduzir-se na ordem inversa da procura do prémio ou incentivo desejado (não basta o frenesim de olhar o computador, ver o historial do paciente e prescrever algo apressadamente…). A humanização, na prestação de cuidados de saúde de qualidade, exige mais! Na minha perspetiva. Finalmente surge a opção por um Serviço de Urgência Básica (além de outros serviços/valências). Que serviço é este? Onde deve existir? De que recursos e equipamentos dispõe? Um Serviço de Urgência Básica (SUB) deve existir onde se considere justificado para garantir o acesso a Serviços de Urgência, quando a população de determinada área territorial não tenha assegurado um nível de Serviço de Urgência Superior, isto é: um Serviço de Urgência Médico-Cirúrgica (SUMC) ou um Serviço de Urgência Polivalente (SUP), num tempo máximo de 60 minutos. Relembro que há localidades de Vieira do Minho que se encontram a essa distância/tempo do SUP do Hospital de Braga.
Um SUB dispõe dos seguintes recursos mínimos (humanos): 2 médicos e 2 enfermeiros em presença permanente 24 horas, técnico de diagnóstico e terapêutica para realização de exames, 1 Assistente Operacional com funções de auxiliar de ação médica e 1 Assistente Técnico por Equipa. Quanto a equipamento dispõe de: carro de emergência com equipamento previsto em Norma da Direção-Geral da Saúde, material para assegurar a via aérea, ventilador portátil, Monitor de Sinais Vitais, com desfibrilhador manual e automático, saturímetro, capnógrafo e marca passo a passo externo, eletrocardiógrafo de 12 derivações, equipamento para imobilização e transporte de traumatizado, condições e material para pequena cirurgia, radiologia simples (para esqueleto, tórax e abdómen), patologia química/química seca e capacidade de medição de gases do sangue e lactatos. Possui 1 ambulância de Suporte Imediato de Vida (SIV) ativável pelo CODU do INEM em gestão integrada, cujo elemento de enfermagem participa na atividade pré-hospitalar, na prestação de cuidados no Serviço de Urgência e colabora no transporte de doentes críticos.
Poderá estar garantido o financiamento, mas não basta. Depois de garantir o financiamento impõe-se o debate e a reflexão conducentes a ações consequente dos envolvidos no processo. Estas incluem necessariamente a realização de diligências sérias junto da ARS Norte e do governo com vista a transformar o sonho em realidade. Igualmente importante, mesmo fundamental, é o envolvimento de todos os vieirenses em torno deste objetivo que é (ou deverá ser) de todos: o melhor para Vieira do Minho em matéria de serviços de saúde.
Quem escreve estas linhas deu outrora provas, sobejamente conhecidas, na tentativa do envolvimento de todos os vieirenses em torno da defesa dos serviços de saúde locais. Todos, incluindo todos os partidos com atividade no concelho, sem exceção! Por isso não valerá a pena recordar a incompreensão, as disputas sectárias, o oportunismo ou o conformismo de alguns no passado. Não vale a pena recordar o histórico e dar nome e data aos responsáveis pelo enfraquecimento dos serviços de saúde em Vieira do Minho. Desde a extinção do Internamento (21 camas) até ao Encerramento do SAP (24 horas), passando pela degradação e desqualificação de serviços (incluindo os das Extensões de Ruivães e Rossas). Não vale a pena, sequer, lembrar quem é que teve papel determinante na defesa desses serviços, através da promoção e realização de manifestações, recolha de mais de 4000 assinaturas enviadas ao governo e à Assembleia da República, e ainda as diligências na ARS Norte ou as duas deslocações à Comissão de Saúde da Assembleia da República, para explicar aos deputados as razões que motivavam à época os vieirenses para a defesa dos seus serviços de saúde. Tudo o referido é passado. E o passado só terá importância se servir de ensinamento para o futuro. Nesse sentido, julgo que é chegado o tempo de “tocar a rebate”, criar sinergias e gerar toda a cooperação possível entre vieirenses em torno de um único objetivo: qualificar e otimizar os serviços de saúde locais! Tudo o mais virá por acréscimo. A localização? É conveniente lembrar que os argumentos reivindicativos têm de ser sólidos e sustentados, caso contrário teremos no fim do dia um serviço de segunda categoria, apesar de estar localizado em sítio soalheiro e com boa acessibilidade. Para terminar, avanço uma proposta de localização caso a opção final seja um Serviço de Urgência Básica (+). Deverá situar-se na fronteira entre Vieira do Minho e a Póvoa de Lanhoso (Pousadouros /Tabuaças). Boa localização, maior proximidade em relação a freguesias de concelhos limítrofes como a Póvoa de Lanhoso (freguesia de Serzedelo, Frades, Rendufinho…, ou Terras de Bouro (freguesias do vale do Cávado como Valdosende, Rio Caldo e Vilar da Veiga) para dar apenas estes exemplos. Esta referência aos concelhos vizinhos não é de somenos importância. Para reclamar um serviço qualificado é condição essencial saber quantos utentes vai a estrutura servir. Se a estimativa do conjunto dos utentes dos diferentes concelhos que vão usufruir do serviço, superar significativamente o número dos utentes de um só concelho essa projeção de maior afluência vai dar força, escala e a dimensão capaz de sustentar e justificar junto das “autoridades competentes” a construção de um Centro de Saúde Novo (com Serviço de Urgência Básica…). Com um serviço de urgência alternativo ao Serviço de Urgência Polivalente (SUP) do Hospital de Braga ganhariam todos. Vieirenses e não vieirenses.
João M. Oliveira