A Rádio Alto Ave tem uma nova crónica, desta vez com o autor vieirense Hermínio Silva. Todos os sábados, o vieirense trará uma crónica dedicada aos antigos comerciantes que marcaram a história e a identidade de Vieira do Minho.

Sob o lema de um “encontro marcado com as palavras e a reflexão”, o programa pretende ser um espaço de homenagem e de preservação do património imaterial da região.

A primeira crónica:

Agostinho João Fernandes de Almeida, 1903-1973

Casado com Alzira Vieira Leite, pai de seis filhos; três rapazes e três raparigas.
Já nos seus últimos anos de vida, faz parte da minha memória vê-lo descer a avenida, sempre impecavelmente vestido com o seu sobretudo e chapéu pretos, de braço dado com a sua esposa, Alzira, em direção à missa.
Julgo — e não estarei longe da verdade — que, a partir dos anos 40, ninguém contribuiu tanto para o desenvolvimento da nossa terra como ele.
Fez parte da minha meninice. Era um homem abastado, dono de quintas e de grande parte dos terrenos de Vieira do Minho, mas não ficou à espera que deles nascesse ouro sem nada fazer. Tomou a iniciativa de abrir a primeira indústria de tratamento de madeiras, a famosa “Fábrica do Almeida”. Ali deu emprego a muitos vieirenses; muitos lá fizeram a vida toda até à reforma. Quem não se lembra de um dos seus capatazes, o saudoso “Albino da Sócia”?
A administração foi assegurada durante longo período pelo seu filho, Joca Almeida (o ‘Joquinha’), até que um trágico acidente de automóvel o impossibilitou de continuar, entregando a gestão ao Sr. Armindo de Santa Marta. Durante a gerência do Joquinha, o seu braço direito foi o amigo e vieirense José Manuel da Silva Fernandes, este, mais tarde, ingressaria nos quadros da Caixa de Crédito Agricola de Vieira do Minho, onde se manteve até à sua aposentacão.
Após o seu encerramento e muitos anos de inatividade, o que restava do imóvel e os espaços envolventes, foram adquiridos por dois empresários locais, os irmãos Bia e Néné. No local, encontra-se já a nascer um novo e luxuoso projeto imobiliário promovido pelos dois irmãos.
João Almeida, homem de visão e com um instinto nato para os negócios, percebeu cedo que os seus trabalhadores precisavam de uma mercearia para se abastecerem, e assim foi, parte do dinheiro recebido na fábrica regressava a casa através do consumo de bens essenciais adquiridos na sua mercearia.
O progresso alimentava-se a si próprio.
Deixou obra por todo o lado:
-O edifício granítico em frente à atual Casa do Povo (antiga Pensão Lopes).
-O edifício em “meia-lua” junto ao Parque Florestal (onde funcionaram os Correios, o Talho do Luis Cabriteiro, o escritório do Rogério Veloso, a Tipografia Vieirense do João Abreu Dias, e a Fidalagro, casa de produtos agricolas do Eng. Artur Fortunas Fidalgo e filho Artur Fidalgo).
Nas suas traseiras, rua Luís de Camões, diversas habitações em granito (agora completamente remodeladas e muito bem, por um novo proprietário que manteve a sua traça). No rés-do-chão, teve início a atividade da hoje pujante firma José Francisco Lda.; em tempos, funcionaram ali as oficinas de serralharia, de automóveis e de motorizadas, respetivamente do Marcelino Gastalho, do António Toneco e do José Luís Costa.
-De visita a qualquer destas oficinas — que julgo terem funcionado no local simultaneamente — podíamos apreciar de frente o Alfredo Louceiro a expor as suas louças, o sempre bem-disposto Serafim Magarefe a dar forma a umas botas ou sapatos e, com alguma sorte, ainda víamos o Paulinho Veloso a sair de casa com a sua cana de pesca para ir buscar meia dúzia de trutas ao rio de Vilarchão.
-Foi das edificações do João Almeida, pela mão do senhor Manuel Almeida (de Quartas, Cantelães), que também nasceu uma das primeiras oficinas de automóveis de Vieira do Minho, hoje explorada pelo António Veloso. Dali sairiam, sob a tutela do categorizado mecânico Gervásio de Rossas, quase todos os mecânicos de automóveis da terra, entre eles o Carlos Garcia, o Patrício, o Alfredo, o Zé Garrafa, o Mário Ronca e o próprio Veloso.
-Outro edifício emblemático, também nascido da iniciativa de João Almeida, é o que hoje pertence á família Martins de Soengas (totalmente remodelado, mantendo a traça original). Ali funcionou inicialmente a referida mercearia; mais tarde, a pastelaria do senhor Almeno Cardoso, a loja de pichelaria do Angelino Ribeiro e irmãos e a loja de ferragens dos senhores Aristides Lima e Manuel Faia. Hoje, serve como escritório de advogados da Dra. Cecília Martins, filha do proprietário.
-O “correr de casas” do lado direito quem desce a Rua Barjona de Freitas, agora denominada Rua P. José Carlos Alves Vieira. Nos fundos, funcionaram a oficina de latoaria do Abel Latoeiro (e a sua tasca de petiscos), a tasca do Zé Pimpão (antes de emigrar para o Luxemburgo) e a tasca do Gildo (mais tarde churrasqueira do Casemiro Fernandes). No primeiro andar ficavam as habitações onde viveram os meus pais, o Zé Pimpão, o Zeferino taxista, o Abel Dias, a Conceição Padeira e o Hermenegildo Carvalho, todos com as suas famílias.
Casas na rua que dá acesso às Irmãs Aires, casas nas Entre-Devezas, casas na Rua da Costa…Deixou muita obra e benefícios por todo o lado.
Embora não saiba precisar sob qual executivo ocorreu, o seu nome foi atribuído a uma rua da Vila, perpetuando a sua memória até aos dias de hoje.
Alguns dirão: “Com o dinheiro dele, também eu fazia!”
Pois eu digo que não é bem assim. Outros, na altura, eram tão ou mais ricos, mas a única coisa que deixaram foi uma casa brasonada. Benefícios para a terra? Zero.
Que falta nos fazem hoje algumas réplicas de João Almeida.

Hermínio Silva