O nosso quotidiano está cheio de expressões que herdámos dos nossos avós. Falamos de “ir ver Braga por um canudo” quando falhamos um objetivo ou dizemos que um plano correu mal porque “ficou tudo em águas de bacalhau”.
Mas já parou para pensar de onde vêm estas frases? Descubra as histórias fascinantes e surpreendentes por trás de três ditados tipicamente portugueses.
1. “Rés-vés Campo de Ourique”
Usamos esta expressão quando algo acontece mesmo à justa, por um triz, ou quando se escapa de um perigo por milagre.
A sua origem remonta a um dos dias mais negros da história de Portugal: o Terramoto de 1755, em Lisboa. No dia 1 de novembro daquele ano, a cidade foi devastada por um sismo violento, seguido de incêndios e de um maremoto (tsunami) que engoliu a zona ribeirinha (a Baixa).
No entanto, devido à sua altitude e ao tipo de solo, o bairro de Campo de Ourique ficou praticamente intacto. As águas do maremoto e a destruição chegaram exatamente ao limite do bairro, parando ali. Ficou “rés-vés” (ou seja, colado à margem). Quem ali estava, salvou-se por um triz.
2. “Ficar em águas de bacalhau”
Quando um projeto é cancelado, uma promessa não é cumprida ou algo simplesmente não dá em nada, dizemos que “ficou em águas de bacalhau”.
A origem desta expressão está ligada à nossa grande tradição marítima e à pesca do bacalhau na Terra Nova (Gronelândia). Os pescadores portugueses passavam meses nos mares gelados. Quando o bacalhau era pescado, passava por um processo rigoroso: era limpo, escalado e lavado várias vezes em água salgada para retirar o sangue e as impurezas antes de ser salgado.
Essa água da lavagem ficava completamente suja, com restos que já não aproveitavam para nada, e era atirada borda fora. Ou seja, o que ia para a “água de bacalhau” era algo que se perdia para sempre, que se tornava inútil e sem valor.
3. “Ver Braga por um canudo”
Dizemos que alguém vai “ver Braga por um canudo” quando essa pessoa fica desiludida, não consegue alcançar o que queria ou quando um desejo se torna inalcançável.
A origem desta expressão é literal e está no Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga. No topo do escadório, existe um miradouro com uma vista fantástica sobre a cidade. No século XIX, foi lá colocado um óculo público (um telescópio rudimentar que as pessoas chamavam de “canudo”) onde se pagava uma moeda para observar os detalhes da cidade lá em baixo.
Se alguém subia a montanha e a cidade estava coberta de nevoeiro, ou se a pessoa não tinha dinheiro para a moeda, a única hipótese de ver a cidade era aproximar-se do aparelho desligado ou tentar espreitar. A expressão popularizou-se para definir aquela situação em que estamos muito perto de algo, mas acabamos por ficar a ver o objetivo “de longe”, sem lhe conseguir tocar.
E por aí? Qual destas expressões usa mais no seu dia a dia? Já alguma vez foi ver Braga pelo canudo?