Na obra-prima do Padre Alves Vieira, Vieira do Minho – Notícia Histórica e Descritiva (1923-1925), na celebração do 1.º centenário da sua publicação. Em destaque, o capítulo V (primeira parte).
Capítulo V (I Parte) – O NOSSO RIO
Sob o título afetuoso de «O Nosso Rio», este capítulo, com 23 páginas, é um dos mais interessantes da histórica e memorável monografia do concelho de Vieira do Minho. Nenhum retrato existe mais fiel e mais bem conseguido do nosso rio do que o do nosso biógrafo e cronista-mor, Pe. Alves Vieira.
Neste capítulo, o autor, genial paisagista, com um talento descritivo notabilíssimo, capta e retrata os traços mais relevantes e os mais discretos da multiforme fisionomia desse eterno peregrino que se move das suas múltiplas nascentes da serra da Cabreira até ao seu lugar de chegada, Vila do Conde. Sobre «O Nosso Rio», o Pe. Alves Vieira, debaixo do título de «Belezas do Ave», põe em foco: a sua genealogia, radicada nas suas nascentes ou ribeiras, em número de seis; a «Grande fonte de riqueza» que o Ave representa e, deixando-se embalar por essas «belezas» e «riqueza», canta um mavioso hino ao rio que, da Serra da Cabreira, voa até ao seu destino, o grande mar Atlântico.
“Aqui vamos com os olhos fitos no nosso Ave, rio por certo o mais belo e formoso de todo o mundo e, entre os portugueses, o mais fecundo e produtivo.
Que seja belo e formoso, ninguém pode contestá-lo. Já Ptolomeu, um geógrafo antigo, segundo testemunho do P. Torquato de Azevedo, tem o rio Ave «por mais ilustre que todos os mais notáveis de Espanha, e lhe chama Avus (p. 117).
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[Nascente(s) do Ave]
“Voltando pois ao nosso Ave, não será descabida uma referência ao sítio do seu nascimento. Uns dizem que o rio Ave é o que desce pela serra de Pinheiro, e por Cantelães, passando perto da vila; argumentam, para sustentar a sua tese, que esse braço de rio é o que nasce mais perto do marco geodésico, e o que tem maior volume de águas no ponto de confluência dos diversos cursos de água de mais vulto.
Outros sustentam que o verdadeiro rio Ave é o que nasce na serra de Agra e o que desce pela freguesia de Rossas. […]
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[Fonte de riqueza]
“Há rios que são avaros das suas águas, que as escondem em hórridos despenhadeiros ou as levam, a tamanha profundidade, a tal distância das terras, que se pode dizer que esses rios servem apenas para recreação dos olhos. […]
O nosso Ave, não. Esse é um grande benemérito. Ainda a sua corrente não tem o volume de água necessária para mover uma azenha, e já começa a ser prestadio. […]
Em Agra começam os primeiros moinhos, há o celebre Pisão, e tudo como soe dizer-se, nada em água.
O mesmo sucede em Lamêdo e noutros lugares de Rossas. […]
Já em Guilhofrei, como vai mais fundo, o rio Ave é mais avaro das suas águas. Se ele depois é tão generoso lá para baixo, como por aqui, é coisa que pouco nos interessa averiguar. O que sabemos é que ele mesmo depois alimenta centenas de fábricas, por si e pelos seus afluentes.
Mas antes de tocar de novo esse ponto, falemos dos outros dois afluentes do Ave.
O rio que passa por Vilar Chão é por igual prestimoso e benemérito. Em tempos idos, pouco abaixo da sua nascente, o povo abriu uma levada gigantesca, muito extensa, que mais tarde se abandonou. Mas não obstante, o rio dá água para moinhos, para campos de milho e de feno.
Na Pértega junta-se-lhe um outro regato que vem dos Anjos, com o que aumenta muito do seu cabedal de águas. Logo abaixo fica o lagar de azeite de Vilar Chão; ainda dentro do perímetro da mesma freguesia fica outro Pisão de mantas, que aliás pertence a um indivíduo dos Anjos.
Depois, por ali abaixo, rega campos e move moinhos, move outro lagar de azeite em Figueiró, uma serração de madeiras, etc.
O rio que nasce na serra da Arandosa, começa a ser prestadio em Turio, onde já rega pauis de Pinheiro e Cantelães. Tem também já moinhos. Um afluente dele, que chamam Ribeiros dos Corvos, começa bem perto da nascente a ser aproveitado para uma grande poça, que depois rega campos e pauis de Cantelães numa grande extensão.
Depois do afluente principal, de continuo engrossado com novas águas que descem da serra de Cantelães, fecunda e faz feliz essa mesma freguesia, que produz centenas e centenas de carros de milho. E continua a sua obra benemérita por aí abaixo, pelo Mosteiro, onde tem duas fábricas de serração, um engenho de linho, lagares de azeite, etc.
Um ribeiro que desce de Tabuaças, é da mesma maneira ótimo amigo do lavrador. Já em Pepim rega campos e pauis, tem moinhos e um lagar de azeite; depois em Loureiro e noutros lugares acentua o seu carácter deveras generoso e de amigo…” (pp. 120-122).
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[Belezas do Ave]
“Poucos rios pode haver belos como o Ave, se algum há. Cá dentro do concelho temos belos trechos de rios, que vão dar suas águas ao Cávado, mas nenhum desses trechos tem aquela beleza majestosa e simples das quedas do Ave, dos seus açudes límpidos bordados de amieiros. O Rabagão, o rio do Saltadouro, com o seu afluente, o rio do Castelo, impressionam pelos seus despenhadeiros, pela sua feição sinistra, selvagem, de uma imponência malagoirenta. Aqui no Ave tudo é docemente sereno, de uma encantadora amenidade.
Como seria desairoso louvar o pai e olvidar os filhos, falemos de todos os afluentes do nosso lindo rio.” (p.123)
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[Hino ao Ave]
“Oh! Ave! Querido e prestadio Ave! Nós te bendizemos do fundo do coração, porque não passas inutilmente pela nossa e tua terra. Sim, ilustre e benemérito rio: nesta terra, onde há tanta coisa inútil, e onde vegetam tantos inúteis, tu desempenhas a preceito o teu papel de benemérito sem par, digno de bênçãos sem fim!” (pp. 122-123). […]
“Ave querido, as tuas belezas são sem par e sem conta. Mas não podemos esquecer que tu não és a beleza nem a riqueza única de Vieira; e se hoje te endereçamos o singelo canto da nossa sentida admiração, permite que ponhamos ponto nele, esperançados em cantar mais maravilhas tuas, numa nova edição deste livro” (p. 137).
[Fotografia: Ponte Romana de Agra, Rossas / Rio Ave, Rossas | CAVA/Miguel Proença]